quinta-feira, 10 de setembro de 2020

06 ATIVIDADES LÚDICAS E A RESTAURAÇÃO DO EQUILÍBRIO ENTRE AS CAMADAS EMBRIONÁRIAS CONSTITUTIVAS DO SER HUMANO --- BIOSSÍNTESE

 

OBSERVAÇÃO - Ao caminhar pela leitura do presente texto, o leitor deverá ter presente que ele é parte de artigo publicado pela primeira vez em Educação e Ludicidade (Ensaios 02) --- Lucicidade: o que é isso?, sob a organização da Profa. Bernadete Porto --- GEPEL/FACED/UFBA, 2002, páginas 22 a 60, sendo que o texto que se segue está entre as páginas 45 e 55, com uma ou outra atualização.

 

 

Para este tópico, vou servir-me de conhecimentos originários da Biossíntese, que é uma área de conhecimentos criada por David Boadella, um psicoterapeuta somático inglês, no decorrer da década de 1970, e vem sendo permanentemente recriada por ele nesses últimos trinta e mais anos[1]. A Biossíntese não trata de ludicidade. Então, estarei aproveitando alguns de seus conceitos básicos, fazendo pontes para compreender o significado interno da vivência de experiências lúdicas.

O ser humano é constituído, embrionariamente, por três camadas, denominadas germinativas: endoderma, mesoderma e ectoderma[2]. A Biossíntese assume essa realidade como base para estabelecer suas compreensões a respeita das possibilidades de restauração do equilíbrio psicobiológico no ser humano.

Em torno do décimo quarto dia após a concepção, as células do novo ser, que até esse momento eram indiferenciadas, especializam-se, dando forma a essas três camadas, acima indicadas, o que implica que as células, até esse momento indiferenciadas, decidem por compor um ou outro conjunto de órgãos constitutivos do ser humano, relativos a cada uma dessas camadas.

O endoderma dará origem aos órgãos internos moles do tórax e do abdômen, órgãos aos quais se vinculam nossos sentimentos. O mesoderma constituirá nosso sistema de sustentação e movimento: o esqueleto, a musculatura, o sistema circulatório. O ectoderma constituirá o sistema nervoso central e todo o sistema de comunicação do ser humano com o mundo exterior, ou seja, dá origem ao sistema nervoso central e a todas as suas ramificações, que se estendem para todas as partes do corpo, como também para os órgãos dos sentidos, que nos colocam em comunicação com o mundo externo a nós mesmos.

Essas três camadas germinativas dão origem a três modos de ser de cada um de nós: sentir, pensar e agir. Sentimento, pensamento e movimento são três componentes de nosso estar no mundo, à medida que, ao exercitar cada um desses modos de ser, ao mesmo tempo, estamos exercitando os outros dois.

Esses três conjuntos de órgãos manifestam-se em três partes distintas do corpo: a cabeça (ectoderma), o tronco e membros por extensão (mesoderma) e o abdômen (endoderma). E essas partes se ligam entre si por pontes: a cabeça se liga ao tronco através do pescoço, especialmente pela nuca; a cabeça se liga com o abdômen via garganta, parte interna do pescoço; e o tronco se liga ao abdômen através do diafragma. Todavia, nem sempre, ou quase nunca, essas partes funcionam harmonicamente, no decurso de nossas vidas, fato que também se expressa através dos nossos desequilíbrios entre o sentir, o pensar e o agir.

A cabeça, quando está “separada” do corpo, através de bloqueios energéticos na nuca, no ver da Biossíntese, pode ter duas consequências: de um lado, se a energia se concentrar na cabeça, emerge o modo de pensar em excesso e rigidez na conduta; se a energia se concentrar no corpo, hiperatividade descontrolada, na medida em que a ação passa superficialmente pela reflexão, assim como pelos sentimentos.

A cabeça, quando está “separada” do abdômen, também, pode apresentar duas consequências opostas: ou “engole” as emoções, deixando-as presas no abdômen, sem poder expressá-las pelo rosto, ou expressa muita emoção pelo rosto, sem estabelecer contato com o centro do corpo; então, a emoção pode emergir como se fosse vomitada para aliviar a pressão interna (são as reações intempestivas que temos, aqui e acolá, em nosso cotidiano).

Por último, o tronco pode estar “separado” do abdômen pelo diafragma, cujas consequências opostas podem ser: de um lado, quando a energia se concentra mais no tronco, a respiração fica quase que imperceptível, o que conduz a manifestação de quase nenhuma emoção; ou, por outro lado, quando a energia se concentra mais no abdômen, num processo de estado emocional intenso, emerge a ansiedade, que não encontra um modo de expressão por um movimento harmônico. A respiração é ativa, porém, o sistema muscular é pouco ativo[3].

Em nossa vida, o ideal seria crescer com o equilíbrio interno dessas três camadas e, consequentemente, das três qualidades básicas do ser humano, a elas relacionadas: sentir, pensar e agir. Nosso crescimento, em parte, se faz de modo harmônico, mas uma grande parte dele, infelizmente, frente às nossas experiências existenciais, tem se feito pelo caminho do desequilíbrio entre essas camadas e essas qualidades.

Esses desequilíbrios, manifestados pelas qualidades opostas acima indicadas, que são e/ou foram adquiridos no decorrer da própria experiência da vida de cada um, poderão ser restaurados para novas formas de equilíbrio, através de atividades psicoterapêutico-educativas ou educativo-psicoterapêuticas, que restabeleçam o fluxo energético entre as partes componentes do ser humano, assim como entre as suas qualidades de sentir, pensar e agir.

Para entrar no contato mais profundo consigo mesmo, o ser humano necessita estar em contato com o visceral, com o sentimento, que, posteriormente, é compreendido e elaborado no pensamento e atuado ou realizado pelo movimento.

Estabelecer e/ou restaurar o equilíbrio entre os órgãos originários das camadas germinativas do ser humano significa, também, restaurar o equilíbrio entre o sentir, o pensar e o agir. Mas, o contrário também tem sua verdade: a experiência de restaurar o equilíbrio entre o sentir, o pensar e o agir, através da transformação de experiências psicológicas e de crenças, também podem atuar e atuam na reequilibração das camadas biológicas constitutivas do ser humano.

 Usualmente, em nossa sociedade, nós damos pouco lugar aos sentimentos. Em função de nossa herança iluminista (que trouxe um bem para a humanidade, mas tem seu limite), queremos aprender e ensinar somente pelo processo cognitivo e, em função de nosso comprometimento com a produtividade, buscamos sempre mais e mais atividades. Com isso, nossa experiência de sentir permanece relegada ao segundo plano; ou ao terceiro, quarto... último plano! Portanto, nosso caminho predominante tem sido viver no desequilíbrio dos nossos elementos constitutivos, psíquicos e corporais, ao mesmo tempo.

Que isso tem a ver com atividades, que sejam lúdicas? As atividades lúdicas, por serem atividades que conduzem a experiências plenas e, consequentemente, primordiais, a meu ver, possibilitam acesso aos sentimentos mais profundos, o que por sua vez possibilita o contato com forças criativas e restauradoras, que existem em nosso ser.

A vivência dessas experiências vagarosamente possibilita a restauração das pontes entre os componentes do nosso corpo --- endoderma, mesoderma e ectoderma ---, ou seja, a restauração do equilíbrio entre os componentes psíquico-corporais do nosso ser.

Na atividade lúdica, o ser humano --- criança, adolescente ou adulto --- vivencia, ao mesmo tempo, sentir, pensar e agir. Na participação de uma atividade, que se manifeste lúdica, como temos definido, o ser humano torna-se pleno, o que implica o contato com e a posse das fontes restauradoras do equilíbrio.

No caso, agir ludicamente, de imediato, conduz para o contato com o sentimento, que se situa, fisiologicamente, nos remanescentes do endoderma em nosso corpo, o local do contato com as sensações e sentimentos mais profundos de cada um de nós, que por sua vez, facilita os movimentos próprios do ectoderma e do mesoderma, garantindo o pensar e o agir.

Os alquimistas definiam o nosso abdômen como a fornalha, onde tudo se transforma. É para aí que as atividades lúdicas nos conduzem; para a fornalha dos nossos sentimentos e das nossas emoções, aos quais serve nosso pensamento e nossa ação. É nessa fornalha que encontramos as fontes restauradoras da vida, desde que primordiais, primais, básicas.

Como as atividades lúdicas, desde que vivenciadas, podem ser um suporte na construção ou na restauração do equilíbrio energético do ser humano?

David Boadella diz que nós seres humanos somos constituídos por polaridades e a principal de todas as polaridades é a que se refere à dupla interior e ao exterior. O interior é nossa Essência, o Âmago do ser nosso, o centro dos anseios, de nossa alma. O exterior é o nosso corpo, nossa personalidade, é o campo da energia.

O âmago é o Âmago, ele não pode ser manipulado; ele é o que É. Com ele, nós só podemos manter contato; contato que é curativo, quando ocorre, devido estar para além de todo pensamento, de todo julgamento. Nossa essência é curativa porque é divina. A energia, por sua vez, é externa, é a força que nos permite viver e agir; ela é um potencial, que, quando atualizada em nossas experiências cotidianas, pode estar ordenada ou desordenada. Ela necessita ser ordenada para permitir nosso contato com nossa Essência.

Desse modo, a energia, sendo um potencial, podemos construir seu modo de expressar-se ordenadamente pela aprendizagem e pela educação; caso ela já esteja construída de alguma forma --- seja ordenada ou desordenadamente ---, podemos reconstruí-la de forma mais adequada e funcional, tendo em vista nos possibilitar um suporte para entrarmos em contato com nossa Essência, nosso Âmago.

Quando ordenamos ou reordenamos nosso campo energético, ele permite um contato com nossa Essência. E, esse contato, como dissemos, é curativo, à medida que ele, desde que estabelecido, reverbera para todas as nossas experiências de vida.

E esse contato com nossa Essência, na maior parte das vezes, será rápido e fugaz, mas será um contato, e, a partir dele, nossa vida vai se transformando e tornando-se o que necessita ser.

As atividades lúdicas ordenam ou reordenam o campo de nossa energia e, por isso, em momentos fugazes ou mais duradouros, nos permitem um contato com nossa Essência, por menor que seja. Com o tempo e com repetidas experiências plenas, vamos podendo manter um contato mais permanente com nossa Essência, vamos sendo capazes de sustentar essa experiência.

Para compreender o que é contato com nossa Essência, transcrevo a história de vida que se segue. No caso relatado, é preciso ter claro que é uma experiência a partir de uma doença. O processo físico, na referida circunstância, permitiram um contato com a Essência do portador da doença; contudo, vale observar que o contato com a Essência não necessita ser feito pela dor; pode e, acredito, deve ser através da alegria, da beleza, da experiência plena propiciada pela vivência de atividades lúdicas no decorrer da vida.

O texto, que se segue, só nos serve para compreender o que é contato com a Essência, assim como para compreender que estado lúdico (ludicidade) tem a ver com um estado interno e não com as atividades em si. Vale registrar que o relato de uma doença não deve induzir-nos ao entendimento (ou à filosofia) de que, para fazer contato com a Essência de cada um de nós, importa ser pela dor.

O relato só é ilustrativo para compreender que a integridade interna propicia um bem-estar, um estado lúdico que, na vida adulta, pode-se chegar a esse estado por variados caminhos, não necessariamente pelo lazer ou o entretenimento.

Vale a pena ler o relato. Essa história de vida foi relatada por Rachel Naomi Remen[4], em seu livro As bênçãos do meu avô: histórias de relacionamento, força e beleza, Editora Sextante:

 

Como parte de uma pesquisa, pedi a setenta e três médicos que classificassem por ordem de importância uma lista de vinte e um valores: primeiro de acordo com o que era mais importante em seu trabalho; segundo, na vida pessoal.

A lista incluía itens como admiração, controle, sabedoria, competência, amor, poder, solidariedade, alegria, fama, sucesso e bondade. Não recebi duas listas idênticas. Ao contrário, muitas eram totalmente diferentes.

A bondade, por exemplo, era o número dois na lista de valores pessoais e número quinze na lista de valores do trabalho da mesma pessoa. Competência ocupava o primeiro lugar na lista da vida profissional e ficava em último na vida pessoal do mesmo médico. Muitos ficaram impressionados ao constatar que viviam de uma maneira diferente daquela que acreditavam. A tarefa chamou a atenção deles para esse fato pela primeira vez.

Ao discutir os resultados, um surpreendente número de médicos afirmou que achava impossível viver com base nos valores que consideravam pessoalmente importantes. Como disse um dos entrevistados, "a vida nos faz menores". Porém, é claro, isso só acontece se você permitir.

 

Acredito que esse fato se aplica a nós todos. Muitas pessoas sacrificam diariamente a integridade em nome da conveniência. Inúmeros pacientes com câncer já me afirmaram que não diziam sempre a verdade por medo de sofrer rejeição ou alguma forma de perda, pois viviam e trabalhavam no meio de pessoas cuja visão de vida era diferente da sua. Tornaram-se invisíveis para sobreviver ou para manter sua posição na sociedade.

 

Mas a experiência tem me mostrado que quando não vivemos de maneira coerente com nossos próprios valores, alguma coisa dentro de nós começa a se corroer. Podemos sobreviver, mas não viveremos plenamente, integralmente.

 

Talvez a perda da integridade seja a maior de todas as tensões, algo que nos machuca muito mais do que a competição, a pressão do tempo ou a falta de respeito. Nossa vitalidade está enraizada em nossa integridade.

 

Quando não vivemos inteiros, nossa força de vida se divide. Separados de nossos valores autênticos, nós nos tornamos fracos. Talvez seja por isso que quando nossa vida é ameaçada por doenças graves e instintivamente começamos a juntar nossas forças, nossos valores são quase sempre os primeiros a mudar.

 

É surpreendente observar com que frequência as pessoas deixam de perceber que seus valores mais profundos são tão únicos quanto suas impressões digitais. Quando não temos consciência disso sacrificamos determinadas coisas para obter o que os outros consideram mais importante. Aquilo que abandonamos para sermos considerados pessoas de sucesso pode acabar sendo muito mais importante para nós, pessoalmente, do que coisas às quais nos apegamos ou pelas quais lutamos.

 

Às vezes é necessário um alarme como o câncer para nos trazer de volta a nós mesmos. A crise da doença pode nos libertar da vida que criamos e permitir que iniciemos um retorno à vida que é autenticamente nossa. E aquilo que descobrimos nesse momento não chega a constituir uma surpresa para nós.

 

Um de meus pacientes, um executivo diagnosticado com câncer, disse-me um dia: -   Eu sempre soube o que era importante. Apenas não me sentia no direito de viver de acordo com isso.

 

Harry era o administrador de uma grande companhia de seguros, quando descobriu que tinha câncer de cólon. Sendo o primeiro de uma família de agricultores a frequentar uma faculdade, desde o início ele tinha se tornado um aluno excepcional. Era conhecido em seu meio como um homem impetuoso, politicamente esperto e ambicioso, que fazia da carreira a sua própria vida.

 

Seu câncer fora descoberto bem cedo e o prognóstico era excelente. Os colegas esperavam que reassumisse o trabalho bem depressa. Entretanto, dois dias após recomeçar, Harry abandonou seu cargo, surpreendendo a todos. A empresa imaginou que ele tivesse recebido uma oferta melhor, mas não era isso. Harry parou de trabalhar durante um ano. Depois comprou um vinhedo e mudou-se com a família para a propriedade. Nestes últimos cinco anos vem plantando uvas e fabricando vinho.

 

- Desde o instante em que acordei daquela cirurgia, Rachel, tive certeza, sem a menor sombra de dúvida, de que estava vivendo uma vida que não era minha. Sofri muitas pressões dos meus pais para alcançar o sucesso. Eles estavam muito orgulhosos por eu ter escapado da dura vida que levavam há tantas gerações. No início, eu me senti envolvido pelo desafio, querendo muito vencer. Meu pai era um agricultor, assim como meu avô e meu bisavô. Ele detestava o trabalho que fazia, mas eu sou diferente. Eu compreendo a terra. Ela é importante para mim. Conheço este trabalho como conheço a mim mesmo. Sinto que pertenço a este lugar de uma maneira que jamais senti em qualquer outro.

 

Nós nos sentamos na varanda de sua casa, admirando o imenso mar verde formado pelas videiras que dançavam gentilmente ao sabor do vento. Rosas contornavam a cerca da casa. O mundo dos negócios estava a anos-luz de distância. Como se pudesse ler meus pensamentos, ele me disse, com um sorriso nos lábios:

 

-   Meu lema costumava ser: "Faça do meu jeito ou desapareça". Eu me sinto muito orgulhoso de estar vivendo pessoal e profissionalmente, de acordo com os meus desejos. Foi difícil enxergar que eu tinha me vendido de uma maneira tão completa que nem conseguia perceber.

 

A busca da integridade é um processo contínuo que requer nossa atenção constante. Um colega médico, descrevendo sua própria busca da autenticidade, contou-me que vê a vida como se fosse uma orquestra. Lutar por sua integridade o faz lembrar do momento em que, antes do concerto, o maestro pede ao oboísta que toque um lá. No início ouve-se um barulho caótico, causado pelos músicos que tentam harmonizar seus instrumentos a partir daquela nota. Porém, à medida que cada um deles se aproxima do tom, o barulho diminui e, quando finalmente tocam juntos, há um momento de paz, um sentimento de volta ao lar.

 

-   É assim que eu sinto - ele me disse - Estou sempre afinando a minha orquestra. Em algum lugar dentro de mim existe um som que é só meu e eu luto todos os dias para ouvi-lo e para afinar minha vida por ele. Algumas vezes, as pessoas e as situações me ajudam a ouvir minha nota com maior clareza. Outras vezes, elas dificultam a minha audição. Depende muito do meu compromisso em querer ouvir e da minha intenção de manter-me coerente com essa nota interior. Somente quando estou harmonizado com ela é que posso tocar a música misteriosa e sagrada da vida, sem corrompê-la com minha própria dissonância, minha própria amargura, meus ressentimentos e temores. Quer estejamos ouvindo ou não, no fundo de nossos corações a nossa integridade canta. É uma nota que só nossos ouvidos conseguem perceber. Algum dia, quando a vida nos deixar prontos para ouvi-la, ela vai nos ajudar a encontrar nosso caminho de volta para casa.

 

 

 

O contato desse homem com sua integridade ocorreu dessa forma. Com outros certamente ocorrerá por outros caminhos. Ele poderá acontecer e acontecerá sempre e durante toda nossa vida, nos momentos em que nossa energia esteja ordenada ou reordenada, para permitir esse contato, que pode ser fugaz, rápido, como dissemos acima, mas contato. E, é isso que é importante.

Sobre a experiência da dor, que também pode nos estimular a entrar em contato com nossa Essência, talvez, pudéssemos dizer assim: a vida nos diz que, pela ludicidade, podemos estabelecer esse contato, mas, em função de nossa biografia, seguimos caminhos que nos levaram à dor e ela pode nos lembrar para retornar ao nosso caminho essencial de vida, que se expressa pela alegria de viver. Contudo, vale nos pergunta: “Porque esperar por esse impasse na vida?” Talvez, o melhor caminho deva ser pelas atividades que nos trazem plenitude e alegria, como ocorreu, ao final, com o personagem do relato acima.

Encerrando esse texto, novamente retornamos ao nosso conceito de ludicidade como oportunidade de experiência plena interna. A experiência relatada nos lembra que quem terá que fazer o percurso da experiência lúdica, para que ela seja plena, é o próprio sujeito da ação. Ninguém mais.

 Objetivamente, poderemos ter muitas descritivas e análises das atividades lúdicas, que são profundamente importantes para nossa compreensão das coisas, mas, do meu ponto de vista, só o sujeito, enquanto vivente, poderá experimentar a ludicidade como experiência plena em seus atos; e como essa experiência pode nos tornar criadores e recriadores de nossa vida, de uma maneira mais saudável.

Poderíamos continuar nos servindo de múltiplos outros estudos e relatos para compreender o significado e o uso das atividades lúdicas na vida humana e na educação. Mas, por enquanto, fiquemos por aqui.







[1] O presente texto foi elaborado no final dos anos 1990. Hoje, ano de 2020, David Boadella nos deixou, tendo falecido recentemente.

[2] Neste tópico, estarei me servindo bastante dos estudos de David Boadella, no seu livro Correntes da Vida, já citado anteriormente.

[3] Para uma melhor compreensão dessa temática, pode-se ver, também, com muito proveito, o livro Anatomia Emocional, da autoria de Stanley Keleman, S.P., Summus Editorial.

[4] Importa saber que Rachel Naomi Remen é médica, vive nos Estados Unidos e escreveu o livro todo usando a primeira pessoa, desde, nos seus diversos capítulos, relata experiências pessoais. Vale ainda sinalizar que modifiquei, aqui e acolá, a paragrafação do texto, acreditando que facilita sua leitura e compreensão.

 





05 SOBRE AS ATIVIDADES LÚDICAS E SUA FUNÇÃO NO DESENVOLVIMENTO DO SER HUMANO: FREUD E PIAGET

 

 

OBSERVAÇÃO - Ao caminhar pela leitura do presente texto, o leitor deverá ter presente que ele é parte de artigo publicado pela primeira vez em Educação e Ludicidade (Ensaios 02) --- Lucicidade: o que é isso?, sob a organização da Profa. Bernadete Porto --- GEPEL/FACED/UFBA, 2002, páginas 22 a 60, sendo que o texto que se segue está entre as páginas 33 e 45, com uma ou outra atualização.

 

 

 

No que se segue, estarei apresentando duas possibilidades de usos das atividades lúdicas na vida do ser humano, a partir de duas abordagens diferentes: psicanalítica e piagetiana. Poderiam ser outras --- tais como as de Wallon, de Vigotsky e outros ---, porém, escolhi estas duas, que, a meu ver, são importantes para dar corpo à compreensão do fenômeno da ludicidade.

A compreensão sobre aquilo que denominamos de “objetos lúdicos” e “atividades lúdicas”, que são os “brincares” e os “brinquedos” --- especialmente no que se refere à sua constituição socio-histórica e sobre seus papéis na vida humana --- tem origem em várias áreas do conhecimento. Assim, existe uma história do brinquedo, uma sociologia do brinquedo, um estudo folclórico do brinquedo, um estudo psicológico do brinquedo...; o mesmo ocorrendo sobre as denominadas “atividades lúdicas”.

Esses estudos nos ajudaram, ajudam-nos e nos ajudarão a compreender o papel e o uso das “atividades lúdicas” na vida humana, tendo presente, neste texto, que estamos em busca de compreender como, possivelmente, pode dar-se e operar internamente no sujeito a vivência das experiências internas de cada um, por meio da vivencia dessas experiências.

No decurso deste texto, tomaremos duas abordagens teóricas que nos auxiliarão a compreender o papel dessas referidas atividades na vida humana e em seu desenvolvimento; as abordagens de  Sigmund Freud e de Jéan Piaget.

 

 

1. As heranças freudianas

 

Freud compreendeu que o brinquedo é o caminho real para o inconsciente da criança, assim como o sonho é o caminho real para o inconsciente do adulto. Brinquedo, aqui, deve ser entendido em um largo espectro de compreensão, que inclui desde os brinquedos como objetos materiais, assim como os brincares, tanto os que são transmitidos pela herança sociocultural como aqueles que a criança inventa e vivencia espontaneamente a cada momento.

A experiência do brincar --- como outras experiências --- tem seu lado interno, que se expressa no externo sob variadas condutas psicológicas, que podem ser “lidas” e interpretadas por um profissional treinado para tanto. A meta de Freud, em seus estudos e publicações, como sabemos, foi desvendar e compreender as operações do inconsciente através de suas manifestações externas.

A partir daí, o próprio Freud[1]  assim como seus discípulos próximos e distantes, tais como Ana Freud (filha do próprio Freud), Melanie Klein[2]  Bruno Bettelheim[3], D.W. Winnicott[4], Arminda Aberastury[5], André Lapierre[6] e tantos outros produziram diversas compreensões psicanalíticas, assim estruturam possibilidades de usos dos brincares e dos brinquedos nos procedimentos psicanalíticos em crianças, adolescentes e adultos.

A Psicanálise, em sua atuação psicoterapêutica, aposta na restauração do passado e na construção do presente e do futuro. Freud afirmou que temos em nós duas forças fundamentais: as forças regressivas, que nos atém fixados no passado e as forças progressivas, que nos mantém voltados para o futuro.

As forças regressivas são aquelas que tem como seu epicentro as nossas fixações neuróticas ou traumáticas do passado, que nos impedem ou dificultam o nosso viver fluído no presente, como também nossas aberturas para o futuro. Elas se manifestam através de nossas respostas emocionais automáticas no dia a dia, dificultando-nos estar bem conosco mesmos (intrapessoalmente) e em nossos relacionamentos (interpessoalmente). As forças progressivas, por outro lado, são aquelas que nos chamam para o futuro, para as nossas possibilidades de organização pessoal e de ser[7].

No caso do presente capítulo, interessa-nos imediatamente, a questão dos brinquedos, como caminho real para o inconsciente da criança. Nesse contexto, a prática de brincar das crianças, de um lado, revela como elas estão, a partir de suas histórias pessoais, assim como revela o que sentem sobre o seu presente cotidiano, seus medos, seus não-entendimentos do que está ocorrendo, o que está incomodando...; porém, de outro lado, essa prática revela, também, a construção do futuro.

As brincadeiras infantis constroem os modos de ser[8]. As brincadeiras são os meios pelos quais as crianças, de um lado, estão tentando compreender como os adultos agem e o que fazem, e, de outro, experimentam as possibilidades de sua própria vida, o que quer dizer que, através das brincadeiras, estão construindo e fortalecendo o seu modo de ser, a sua identidade[9].

Neste contexto, por exemplo, ao brincar de “pai e mãe”, as crianças, colocando-se nesses papéis, estão tentando saber o que é isso de “ser pai e ser mãe”; ou, outro exemplo, uma criança que passou por uma experiência de hospitalização, possivelmente, por um certo período, após sair do hospital, praticará brinquedos e brincadeiras que tenham como conteúdo algum flash de sua experiência passada recente. Possivelmente, brincará de médico, de enfermeira, de hospital, de ambulância e tantas outras possibilidades, que poderão estar auxiliando a sua compreensão do que ocorreu consigo. O mesmo ocorrerá com seus desenhos, com suas falas, com as estórias que inventa...

Por outra via, se for anunciada a uma criança que, em breve, ela será hospitalizada para uma intervenção qualquer, é bastante provável que inicie a usar brinquedos e brincadeiras relativos à saúde e àquilo que vai ocorrer em sua vida (que são os procedimentos de hospitalização), na tentativa de compreender o que lhe fora anunciado. Todavia, essas manifestações do inconsciente nas brincadeiras poderão também estar, e certamente estarão vinculadas a experiências mais antigas, em termos de história de vida pregressa.

 David Grove, um pesquisador neozelandês, que viveu nos Estados Unidos, criou uma metodologia específica para trabalhar com traumas através das metáforas, afirmando que as metáforas são expressões de traumas que estão fixados em nosso inconsciente. Quando, por exemplo, digo --- “eu tenho um nó na garganta”, ou “carrego o mundo nas costas”, ou coisas semelhantes, que de fato, não tem uma realidade física que sustente essas afirmações ---, eu estou, segundo esse pesquisador, expressando experiências traumáticas que estão guardadas no inconsciente.

Nesse contexto, pessoalmente, acredito que as brincadeiras infantis são metáforas que expressam aquilo que vai pelo seu interior; elas falam de sua realidade interior através do caminho metafórico das brincadeiras. Nós adultos, necessitamos aprender a compreendê-las em sua linguagem metafórica.

Se prestarmos atenção em nossos filhos e filhas, ou em nossos netos e netas, ou em nossos estudantes na escola, ou crianças em geral, observaremos que seus atos, sempre, estarão comunicando alguma coisa. Para entender essa comunicação, importa estar atento para o que elas querem dizer. David Boadella, criador da Biossíntese, diz que “como ponto de partida, é necessário reconhecer que é impossível um indivíduo não se comunicar”[10].

Por vezes, será bastante fácil descobrir o significado dessa comunicação, por outras, será exigido mais atenção e esforço de nossa parte para proceder essa compreensão. E, mais que isso, esforço e disponibilidade para aceitar a comunicação que está vindo através de uma brincadeira, pois que nem sempre estamos preparados e dispostos para acolher o que está ocorrendo.

Por vezes, as brincadeiras de nossas crianças nos desagradam, mas o que será que elas estão nos revelando, nos dizendo ou querendo nos dizer? É isso que a Psicanálise nos ensina: “observe como as crianças estão brincando, seus atos estão revelando o seu interior”.

Existe um escrito de Freud onde ele relata a experiência de ter ido visitar uma filha, que não se encontrava na casa paterna, e, enquanto, nesse espaço, estava a sós com uma criança, observou que ela atirava um carretel de linha para baixo de um armário e, a seguir, puxava-o; quando atirava o carretel, fechava o semblante e, quando o trazia de volta, abria em sorriso.

Após, atentamente, observar essa experiência, Freud realizou a seguinte leitura: a criança estava tentando compreender como a mãe desaparecia e, depois, aparecia novamente, expressando, de um lado, o sentimento de tristeza pelo afastamento da mãe e, de outro, a alegria pelo seu retorno. A experiência interna revelava-se em uma manifestação externa. E foi a partir desse ponto que Freud fez sua leitura interpretativa da experiência (certamente válida) da criança.

Contudo, importa ainda observar que o ato de brincar não só é revelador do inconsciente, ele também é catártico, ou seja, ele é liberador. Enquanto a criança brinca, ela, ao mesmo tempo, expressa e libera os conteúdos do inconsciente, procurando a restauração de suas possibilidades de vida saudável, livre dos bloqueios impeditivos. E, por vezes, os bloqueios já estão tão fixados, que eles impedem a criança até mesmo de brincar; fato este que estará nos sinalizando a necessidade de uma atenção mais cuidadosa para essa criança.

Por outro lado, as brincadeiras, por serem atividades, segundo a visão de Bruno Bettelheim, e pessoalmente concordo plenamente com ele, são instrumentos da criação da identidade pessoal, à medida que elas, nessa perspectiva, estabelecem uma ponte entre a realidade interior e a realidade exterior. Esse é o lado construtivo das brincadeiras.

Pelas atividades em geral e pelas brincadeiras em específico, a criança aproxima-se da realidade, criando a sua identidade. O princípio do prazer equilibra-se com o princípio da realidade, na criança, através das brincadeiras. Elas são o meio pela qual as crianças fazem o trânsito do mundo subjetivo simbiótico com a mãe para o mundo objetivo da lei do pai[11], criando o seu modo pessoal de ser e estar no mundo, criando sua identidade pessoal; ou, se se quiser, sua individualidade.

Assim sendo, o brincar, para as crianças, não será só o caminho real para o inconsciente doloroso, mas também para a construção interna da identidade e da individualidade de si mesmo.

Será que as brincadeiras seriam o caminho real só para a inconsciente e a identidade e individualidade da criança, ou para o inconsciente do adulto também? Vivenciar experiências ativas, segundo tenho observado, é também um caminho tanto para o inconsciente quanto para a construção de identidade e individualidade saudável dos adultos. Por vários anos, venho ensinando e trabalhando com o foco na ludicidade com meus estudantes na Pós-Graduação em Educação, na Faculdade de Educação, da Universidade Federal da Bahia[12] e tenho tido a oportunidade de ver como, também para adultos, essas atividades (brincadeiras) podem ser um caminho real, ao mesmo tempo, para o inconsciente reprimido assim como para a criatividade e, consequentemente, para a criação de uma individualidade mais saudável. Ou seja, também para os adultos, as atividades psico e emocionalmente dinâmicas são catárticas, o que quer dizer liberadoras das fixações psicológicas que ocorreram no passado e construtoras das alegrias do presente e do futuro.

Essa abordagem, a partir das contribuições da Psicanálise, se integra à visão de ludicidade como possibilidade de vivência da plenitude da experiência? Tomando por base os fundamentos do pensamento de Ken Wilber, que expusemos em capítulo anterior, podemos compreender que o que ocorre dentro da criança configura-se no quadrante superior esquerdo, na dimensão do Eu, a dimensão interna. O que ocorre nessa dimensão, nós, de fato, não podemos saber, a menos que a criança, de alguma forma, nos revele. É a sua experiência interior. Os atos externos poderão ser descritos comportalmentalmente, mas a experiência interna é de quem a vive e nós só podemos nos aproximar dela, da forma mais apropriada, pela partilha e, mais distantemente, por uma analogia com a nossa própria experiência.

Então, tendo vivido experiências semelhantes, podemos compassiva e empaticamente, sentir o que se passa dentro do outro. Seremos, então, ressonantes à experiência do outro e, deste modo, poderemos, aproximadamente, compreender o que está ocorrendo em seu interior. Ou pela interpretação, a partir de um olhar externo sobre as manifestações da criança ou do adulto, enquanto vivenciam sua experiência; mas, aí, será sempre uma interpretação externa, ainda que, se for realizada com cuidado e amorosidade, poderá ser muito útil no acompanhamento do processo de desenvolvimento do outro.

Assim sendo, cada criança, adolescente, ou adulto, enquanto vivencia uma experiência, que tem a característica de ludicidade, a vivencia como experiência plena dentro de si, em seu interior; externamente, podemos descrevê-la, o que não necessariamente significará que nos apropriarmos plenamente daquilo que se deu ou se dá nessa experiência plena interna do outro. Podemos nos aproximar de sua compreensão, porém para descrevê-la, somente aquele que vivenciou a experiência e, na medida que que for capaz de relatá-la.

 

 

 

2. As heranças piagetianas

 

Em Jéan Piaget, os jogos são compreendidos como recursos fundamentais dos quais o ser humano lança mão em seu processo de desenvolvimento, possibilitando a organização de sua cognição e de seu afeto, portanto a organização do seu mundo interior na sua relação com o mundo exterior.

O tema que Jean Piaget sempre se colocou, ao longo de sua vida de pesquisas sobre a inteligência humana, foi: como se dá o conhecimento? Como se constrói, no ser humano, o processo do conhecer? E sua resposta permanente foi: através das atividades. O ser humano, como um ser ativo, aprende por meio de sua ação. Age e compreende, por meio de uma dialética de assimilação e acomodação em suas relações com o mundo exterior.

“Assimilar” significa tornar um novo objeto ou ideia semelhante ao esquema mental já construído ou já consolidado pelo sujeito do conhecimento, ou seja, construir internamente a imagem do mundo exterior, através da articulação com as imagens e compreensões já existentes; propriamente um processo de “assemelhação” do novo objeto às imagens mentais já existentes; e “acomodar” significa a tendência do organismo de ajustar-se a um novo objeto e assim, alterar os esquemas de compreensão e ação já adquiridos anteriormente; com a aprendizagem, as estruturas cognitivas “acomodam-se” à nova imagem assimilada . É nessa dialética que se aprende e se desenvolve.

Evidentemente que os processos de assimilar e acomodar não são tão lineares e mecânicos quanto as definições, acima colocadas, parecem indicar. São processos profundamente complexos, pelos quais cada criança, cada adolescente e cada adulto estabelece o seu modo de relações e constrói o seu modo de agir e reagir, estando situado seja no contexto de sua intimidade, seja em determinada realidade natural e/ou sócio-histórica.

A assimilação é o meio pelo qual tornamos o mundo exterior semelhante ao nosso mundo interior, aos nossos sentimentos, aos nossos fantasmas, aos nossos conhecimentos. A acomodação é o processo que nos permite desvendar o que não sabemos e que não dominamos do mundo externo a nós mesmos e nos possibilita apreendê-lo, cognitiva, mas, ao mesmo tempo, emocionalmente. A dialética entre esses dois processos permite-nos a construção de nós mesmos e de nosso modo de ser na vida e no mundo, relacionados a nós mesmos, aos outros e a mundo material e cultural que nos envolve.

Os processos de assimilação e acomodação, usualmente operam dialeticamente, o que quer dizer que assimilamos para acomodar e acomodamos para assimilar. Por exemplo, ao adquirir um novo aparelho de som para minha casa, uma parte de como fazê-lo funcionar, eu já sei; assim sendo, assimilo (assemelho) elementos desse objeto a elementos que já detenho como conhecimento. Porém, tem uma parte que eu não sei; então, aprendo; é isso que é acomodar-se, ou seja, integrar a parte do mundo exterior que ainda não está integrada em mim, nessa experiência.

Esse processo possibilita, permanentemente, um aprofundamento do conhecimento cada vez que me detenho no objeto, com nova assimilação e nova acomodação.

Em seu livro A formação do símbolo na criança, Piaget[13] trabalha com os jogos como os recursos ativos dos quais o ser humano se serve em sua vida para construir-se a si mesmo, aprendendo a relacionar-se com o que está fora e em torno de si. É nesse contexto que Piaget estabelece o entendimento de que as atividades praticadas pelo ser humano, em seu processo de desenvolvimento, podem ser compreendidas como jogos e classificados em três tipos: jogos de exercício, jogos simbólicos e jogos de regras.

Entre o nascimento e os dois anos de idade, período em que Piaget situa a fase sensório-motora do desenvolvimento, dão-se os jogos de exercício, que são atividades funcionais, que tem sua origem na capacidade reflexa com a qual o ser humano nasce. São propriamente todas as atividades que a criança realiza para tomar posse de si mesma na sua relação com o mundo: mexer os braços, pernas, emitir sons, pegar, agarrar, puxar, empurrar, rolar, se arrastar, engatinhar, levar objetos na boca, imitar,... Até os dois anos de idade predominam esses jogos na atividade da criança, que, segundo Piaget, é o período de nossas vidas onde predomina a acomodação, em função do fato que a criança predominantemente imita o que os outros fazem, especialmente os adultos; ou seja, ela está mais voltada para apreender o mundo exterior.

A seguir, aproximadamente, entre os dois e os seis anos de idade, a criança dedicar-se-á aos jogos simbólicos; é a fase que o autor denomina de pré-operatória. Nesse período, dão-se os jogos simbólicos, onde predomina a assimilação. São os jogos da fantasia, período em que as crianças gostam muito de brincar de “faz de conta”. O mundo exterior é, então, de modo dialético, “tornado semelhante” às imagens existentes no mundo interior. Não importa, assim, a realidade como ela é; o que importa é o que ela pode parecer que é. Um lápis, que, na realidade, é um lápis, pode ser muitas coisas na fantasia, tais como um cavalo, um ônibus, um carro, um avião, um barco, ou simplesmente um objeto para ser mastigado... É também nesse período que as crianças gostam muito das estórias, dos contos de fada, das estórias imaginadas; mas, também, fabulam, constroem suas próprias estórias. Criam e recriam personagens e estórias. Esse é o período em que Piaget diz que predominam os jogos simbólicos.

Os jogos de regras vão predominar a partir dos seis/sete anos de idade para a frente, período denominado, inicialmente, de operatório concreto (sete aos doze anos) e, depois, de operatório formal (a partir aproximadamente dos doze anos em diante). É o período da aproximação e da posse da realidade. Em torno dos cinco, seis e sete anos, a criança vai se aproximando mais da realidade, onde se defronta não mais com as puras fantasias, mas sim, com os próprios dados do mundo real, o que implica em regras que dão forma ao mundo.

É nesse período que Freud situou, especialmente, a manifestação mais plena do Complexo de Édipo, período onde fortemente as regras e papéis sociais colocam para a criança os limites das relações sociais. É por essa idade que meninos e meninas iniciam a brincar com elementos que exigem regras definidas: brincar de casinha, pai, mãe, médico, advogado, enfermeira, etc. Ainda que em forma de brincadeira, são os elementos da vida real que iniciam a via à tona. Daí para frente, as crianças, os pré-adolescentes, os adolescentes e os adultos jogarão jogos de regras. Esses, como os anteriores jogos, auxiliarão a criança, o adolescente e o adulto aprender a operar com os entendimentos dos raciocínios abstratos e formais.

Nessa sequência de possibilidades de jogar --- exercício, simbólico e de regras ---, a aquisição das habilidades menos complexas servirão de base para as que exigem elementos mais complexos para o agir. Assim, quem só possui a capacidade para praticar os jogos de exercício, por si, não terá condições de praticar os outros tipos de jogos, que exigem estruturas psicológicas, mentais e lógicas mais desenvolvidas e complexas.

Todavia, aquele que já chegou ao estágio dos jogos simbólicos poderá, perfeitamente, praticar os jogos do estágio anterior (os jogos de exercício). O mesmo ocorrendo com as outras etapas do desenvolvimento e seus respectivos jogos. Isso quer dizer que quem pode o menos não pode o mais; porém, quem pode o mais, pode o menos também.

A partir dessas rápidas noções sobre os jogos em Piaget, podemos concluir que, para este autor, os jogos, como atividades que propiciam estados lúdicos, servem de recursos de autodesenvolvimento. Piaget vê os jogos como atividades que vão propiciando o caminho interno da construção da inteligência e dos afetos, à medida que se manteve atento a sua permanente pergunta: como o conhecimento se dá, ou seja, como é construída a capacidade do conhecer, que é interna?

Tendo por base a compreensão piagetiana dos jogos, podemos perceber a sua significação para a vida das crianças, dos pré-adolescentes, dos adolescentes, assim como para os adultos, na perspectiva de subsidiar o desenvolvimento interno, que significa a ampliação e a posse das capacidades cognitivas, afetivas e psicomotoras de cada um. Assim sendo, podemos e devemos nos servir das atividades que propiciem estados lúdicos, na perspectiva de que, ao mesmo tempo, propiciem resultados significativos para o desenvolvimento e formação dos nossos educandos.

Conhecendo a teoria e as suas possibilidades práticas, temos em nossas mãos instrumentos fundamentais para dirigir a nossa prática, propiciando oportunidades aos nossos educandos de internamente se construírem.

Com essa teoria em nossas mãos, podemos saber o que fazer com as brincadeiras e as atividades em cada fase de desenvolvimento de uma criança, um adolescente ou um adulto. Piaget nos ajuda a não colocar o carro antes dos bois. Faz-nos compreender que é preciso estarmos atentos ao tempo e às possibilidades de realizar e incorporar uma determinada ação.

Enquanto Freud esteve atento mais aos processos emocionais constituídos através do brinquedo e do jogo, Piaget esteve mais atento aos aspectos cognitivos trabalhados por esses mesmos recursos, sem que tenha descuidado dos aspectos afetivos e morais. Enquanto a psicanálise esteve mais atenta (não exclusivamente) à reconstrução da experiência emocional, Piaget esteve mais atento ao processo de construção dos conhecimentos e da afetividade. Todavia, ambos são de fundamental importância para quem deseja trabalhar com atividades educativas que possam produzir estados de ludicidade, seja na educação familiar, na educação escolar, na educação extra-escolar, seja na psicoterapia.

Aqui, também, podemos observar que a atividade só poderá trazer a sensação de experiência plena, na dimensão do sujeito que a vivencia. Praticar jogos de exercício, jogos simbólicos ou jogos de regras só poderá ser pleno para quem os pratica, mas parece que todos os que os praticam com inteireza, integridade e presença, chegam a esse cume de sensação de plenitude, o que nos permite admitir que as atividades lúdicas podem e devem ser utilizadas como recursos para a busca de um crescimento o mais saudável possível.





[1] Importa observar que Freud não se dedicou diretamente ao trabalho psicanalítico com crianças, ainda que tenha estudado o mundo infantil para compreender o adulto. Deixou um estudo de caso intitulado “Análise da fobia de um menino de cinco anos”, Edição Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, Rio de Janeiro, Editora Imago, volume X p. 11-158.

[2] Existem traduções disponíveis das obras tanto de Ana Freud como de Melanie Klein pela Imago Editora do Rio de Janeiro.

[3] Bruno Bettelheim, Uma vida para seu filho, Rio de Janeiro, Editora Campus.

[4] D.W. Winnicott, O brincar e a realidade, Rio de Janeiro, Imago Editora

[5] Arminda Aberastury, Psicanálise da Criança, Porto Alegre, Editora Artes Médicas.

[6] André Lapierre, Fantasmas corporais e prática psicomotora, S. Paulo, Editora Manole; A simbologia do movimento, Porto Alegre, Editora Artes Médicas; Psicanálise e análise corporal da relação, São Paulo, Editora Lovise.

[7] Sobre isso, Bruno Bettelheim, em Uma vida para seu filho, op. cit., 18a edição, pág. 145-145 diz: “A maior importância da brincadeira está no imediato prazer da criança, que se estende num prazer de viver. Mas a brincadeira tem duas faces adicionais, uma dirigida para o passado e outra para o futuro, como o deus romano Jano. A brincadeira permite que a criança resolva de forma simbólica problemas não resolvidos do passado e enfrente direta ou simbolicamente questões do presente. É também a ferramenta mais importante que possui para se preparar para o futuro e suas tarefas”.

[8] Stanley Keleman, que não é um psicanalista, mas o criador da Psicologia Formativa, nos lembra que é pela ação que o ser humano organiza sua experiência e constitui sua forma. Ver, por exemplo, o seu livro Anatomia emocional, Summus Editoria, SP.

[9] Bruno Bettelheim, em seu livro Uma vida para seu filho, op. cit., é muito claro nisso; para tanto, vale a pena ver a II Parte do livro, intitulada “Desenvolvendo a individualidade”, onde ele faz um longo estudo sobre a brincadeira e os jogos no processo de formação da individualidade da criança.

[10] David Boadella, Correntes da vida, São Paulo, Summus Editorial, 1992, p. 13.

[11] Ver D.W. Winnicott, em O Brincar e a Realidade, op. cit., sôbre a questão dos fenômenos e dos objetos transicionais.

[12] Iniciei meu trabalho com o estudo, ensino e com a prática das atividades lúdicas, em 1992, com as quais trabalhei até 2010.

[13] Jéan Piaget, A formação do símbolo na criança, Rio de Janeiro, Livros Técnicos e Científicos Editora, 1990.